Nada será como antes
Maristela Cusin Longhi, presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (ABIMÓVEL)
Desde o início do acirramento da pandemia do coronavírus, em -meados de março, a ABIMÓVEL vem trabalhando incansavelmente junto ao governo federal no monitoramento das informações, necessidades e demandas do setor, bem como na construção de absolutamente todas as medidas que foram anunciadas.
Nos reunimos semanalmente com a equipe econômica do Ministério da Economia, e diariamente as equipes trocam informações sobre o setor, sem horário, numa parceria inquestionável e que muito nos honra, pois é fruto do grande trabalho da entidade junto ao governo. Todos os pedidos do setor e da cadeia produtiva de madeira e móveis, foram encaminhados e analisados ou estão em fase final de análise.
Neste momento estamos envolvidos nas discussões e no trâmite da Reforma Tributária e do Projeto Custo Brasil. Além disso, ampliamos o diálogo com as indústrias do país, com a rede de fornecedores, varejo e com o sistema financeiro, construindo e propondo soluções que ajudem a cadeia produtiva a minimizar os prejuízos causados pela pandemia.
O novo cenário é de desafios, da busca por novas oportunidades e modalidades no mercado, de digitalização e da adoção de protocolos de segurança, além de novas práticas em todos os níveis. Muitas indústrias e organizações infelizmente não conseguirão se reerguer após o acirramento da Covid-19. No caso da indústria de móveis, deveremos concentrar nossos esforços na estratégia, no plano de negócios, na gestão de equipe, no olhar atento a cada nicho de mercado, nos processos de produção, nas demandas do nosso consumidor e nas diversas formas de atuação do varejo, e-commerce, marketplace e os novos canais de distribuição. Teremos que ser cada vez mais assertivos, focados e atentos aos novos clientes, pois nada será como antes, está havendo uma grande transformação no mundo em decorrência do que estamos vivendo.
Os números da crise na indústria de móveis são perturbadores, tivemos uma queda acumulada na produção de cerca de -22%, entre janeiro e maio, o que demonstra o impacto no setor. A avaliação e a projeção dos indicadores do setor estimam uma queda de 6,5% no número de peças comercializadas no acumulado do ano, contra uma redução de 9,45% na produção industrial. As exportações, por outro lado, deverão ter uma queda de 17,7%, em relação a 2019.
O mercado global também foi impactado seriamente pela crise da Covid-19. Logo, neste momento, observa-se que a economia mundial e os setores produtivos vêm buscando alternativas para minimizar os efeitos negativos, e o comércio internacional apresenta-se como um dos caminhos. A indústria brasileira é exportadora e tem buscado ao longo dos anos expandir o destino das suas exportações, que chegam hoje a mais de 115 mercados. Somos o 5º maior produtor mundial de móveis.
Digo isso para mencionar que a nossa indústria tem parques fabris modernos, com tecnologia e inovação, competitividade, mão de obra qualificada e design integrado à indústria, fatores fundamentais para aumentar ainda mais a sua participação no mercado global. Nos últimos anos, as empresas têm focado no atendimento e prospecção de clientes tradicionais e potenciais e de novos nichos no mercado externo. Dados oficiais da balança de pagamentos do Brasil demonstram que a cesta de exportações apresentou, em 2019, um índice de -2,2% da cesta de produtos (índice de todos os setores). A indústria de móveis, por sua vez, cresceu 2,2%, e as empresas que compõem o Projeto Setorial BrazilianFurniture - cerca de 170 fabricantes de móveis -, uma parceria da ABIMÓVEL com a APEX Brasil, apresentaram uma taxa de crescimento nas exportações de 8% comparado ao mesmo período do ano anterior, em 2019.
Esses dados mostram a potencialidade do nosso setor e da importância de ações estratégicas no mercado internacional. De qualquer forma, acreditamos que acordos e alianças comerciais com outros países criam um ambiente favorável e podem ajudar e potencializar a recuperação e integração entre os mercados. Nesse sentido, cabe lembrar que no acumulado do ano (jan/maio), as exportações tiveram uma queda de -17,6%.
É absolutamente importante frisar que todos, sem exceção, foram atingidos pelo acirramento da pandemia: todos os elos da cadeia produtiva; fabricantes, fornecedores, consumidores, importadores, exportadores, mercado, ou seja, toda a população mundial foi afetada. Logo, se observarmos a gama de políticas e medidas apresentadas num cenário tão conturbado e em tão pouco tempo, verificaremos que muitas ações foram implementadas (medidas trabalhistas, de crédito para o micro, pequeno e médias empresas, prorrogação de financiamentos e contratos de ACCs, redução e postergação de impostos e tributos, auxílio emergencial aos trabalhadores e mais necessitados, simplificação e desburocratização, melhoria do ambiente de negócios, entre outros), porém há muitas outras ações em discussão e tramitação que precisam ser executadas (Reintegra, Reforma Tributária, desoneração da folha, marcos regulatórios, privatizações, diminuição do custo Brasil, etc) para que consigamos superar este momento crucial que estamos vivendo e, com isso, termos um país social e economicamente viável.
